O DIA A DIA
O suor escorre em
minhas têmporas, o pescoço está úmido, a minha social está empapada d’agua do
corpo, angustio-me com a situação. Sacudo a social pra secá-la, acabo
amarrotando-o. Sopro dentro da veste para refrescar o corpo; enxugo as têmporas
com o dorso da mão e a calça absorve o suor do dorso. Faço tais gestos
incontáveis minutos. A situação é embaraçosa! Mas é educativa: nunca mais
sairei de casa sem o lenço de bolso. É verdade que ficou antiquado, porém é
útil.
Confesso! É constrangedora
a situação. Sinto falta do velho companheiro. Nesses momentos, ele me protegia
com fervor. Também, acho que esta situação é o meu pecado por cometer
infidelidade contra o velho companheiro. Traí com uma formidável mulher. Aliás,
nem sei se é linda, ou formidável em carne em osso. Mas... A voz era! Ouvi-a na
rádio “Fico atraída por homem que anda com a cabeça nua e não suporto ver
homens com a cabeça coberta.”. Escutava-a quando aprontava para sair... Eu a imaginava
despida no divã da sala...
Antes de passar a chave
na casa, olhei o velho companheiro no cabideiro, sem remorso, o deixei! Só pensava
na cena que podia encontrá-la em meus caminhos, igual ao do cinema.
Eis, o meu erro: deixei-o e deixei-me ser
lubridiado por uma desconhecida. Fui tolo! Admito! Agora, pago o meu pecado por
ser infiel. Estou em maus lençóis.
Quando chegar em casa
vou pega-lo, colocarei entre os braços, olharei com ternura e pedirei o seu
perdão, falarei que nunca mais irei traí-lo por mulher nenhuma! E direi “a voz é
adorável! É como um anjo! você me entenderia se a ouvisse.”.
Quando os transeuntes
passam por mim, sinto-me envergonhado, pois estou diante deles no estado
desconfortante. Estou parecendo um maratonista que acabara de percorrer um
trajeto. Alegra-me um pouco que não só eu esteja sendo acometido por esse infortúnio
– Alguém em algum lugar desta cidade tá no mesmo inferno. Paro e sento em uma mesa
de uma barraqueira para refrescar-me, enquanto o meu pedido não sai. Vejo:
– Eita, calor! Dizia uma senhora, fazendo
ventilação pra o seu corpo girando o pano de mão.
– Vou te contar: o sol
tá de rachar. Dizia outra senhora
– Está merecendo uma
cerveja, né?
–É, sim, mermã!
– Vou te falar.
– O quê?
– Parece que o hoje é
nosso estágio?
– Como? Estágio?
– Do... Benzeu-se e
calou-se.
Notei que todos os cavaleiros da cidade
estão sem cobertura. Suponho que escutaram a mesma estação...
– Meu bem, está aqui o
seu pedido. Com açúcar e com leite. Dizia a barraqueira, enquanto, me servia.
Agradeci pelo serviço: pelo
café e o beiju.
kkkk
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